"Há coisas que são tão sérias que você tem que rir delas"
Niels Bohr



- Que coisa esquisita, Miss Pollyanna! A senhora fica contente com tudo o que acontece! observou a criada lembrando-se das cenas do quartinho.
A menina sorriu.
- Pois é do jogo, não sabe?
- Do jogo? Que jogo?
- O "Jogo do contente", não conhece?
- Quem é que botou isso na sua cabeça, menina?
- Papai. Papai explicou-me esse jogo, que é lindo, disse Pollyanna. Em casa brincávamos disso, desde que eu era assinzinha. Depois ensinei-o às damas da Auxiliadora e elas também brincavam de ficar alegres.
- Como é? Eu não entendo muito de jogos.
Pollyanna sorriu de novo, porém com um suspiro - e sua face sombreou-se.
- Começou com umas muletas que vieram na barrica do missionário.
- Muletas?
- Sim, muletas. Eu queria uma boneca e papai havia escrito que a mandassem, mas quando a barrica chegou, não havia boneca nenhuma dentro e sim um par de muletinhas para criança. Foi então que o jogo principiou.
- Mas não estou vendo nenhum jogo nisso, disse Nancy quase irritada.
- Oh, o jogo é encontrar em tudo qualquer coisa para ficar alegre, seja lá o que for, explicou Pollyanna com toda a seriedade. E começamos com as muletinhas.
- Eu não vejo como se possa ficar alegre de encontrar muletas em vez de bonecas. Não entendo.
A menina bateu palmas.
- Pois aí está o jogo! Eu também não via no começo e papai teve que explicar-me.
- Pois então me explique o que lhe explicou.
- Sim. Fiquei alegre justamente por que não precisava delas, gritou Pollyanna exultante. Veja como o jogo é fácil, quando se sabe!
- Que esquisitice! exclamou Nancy olhando para a menina, ressabiada.
- Esquisitice, nada! - é lindo! afirmou Pollyanna com entusiasmo. E começamos com esse jogo desde esse dia. E quanto pior é o que acontece, tanto mais engraçado fica. Às vezes é bem duro de roer, como quando papai morreu e fiquei só com as damas da Auxiliadora...
- Sim, e também quando foi jogada num quartinho do sótão, sem quadros, nem tapetes, sem nada nele, resmungou Nancy.
A menina suspirou.
- Foi duro de roer a princípio, admitiu ela, principalmente sentindo-me tão só no mundo. Eu não "joguei" naquela hora e estive lamentando a falta do que não havia. Depois comecei o jogo - e logo me lembrei como me dói ver as sardas do meu rosto ao espelho e fiquei alegre de lá não haver espelho. E vi o "quadro" da janela e tudo mais. Você sabe, quando a gente quer uma coisa e encontra outra, esquece da primeira.


(Eleanor H. Porter, em Pollyanna - tradução de Monteiro Lobato)


Vagando pela net a alguns dias atrás, achei esse texto do livro Pollyanna, acho difícil encontrar principalmente "uma moça", como eu, que não tenha o lido. E pensei, cá com meus botões, por que não passar brincando de Jogo do Contente?

A princípio se parece muito fácil, mas se é extremamente difícil. Estou tentando, a alguns dias, brincar disso, não consegui todas as vezes, depende do grau e da intensidade do problema. Todos nós deveríamos tentar jogar o jogo do contente e não ficarmos mal-humorados com as coisas mais esdrúxulas da face da terra, não digo que devemos esconder ou fingir que nada nos abala, mas sim fazer de momentos que não merecem de momentos mais felizes.

No Ipod: Aquarela - Vinicius de Moraes / Toquinho / Guido Morra / Maurizio Fabrizio

1 comentários:

Carol Godoi 19 de outubro de 2009 06:07  

Oi, obrigada pela visita no blog. adorei reler Pollyana, tava mesmo precisando me lembrar de algumas coisas que já tinha aprendido há muito tempo com esse livro.
beijos!

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